O SER QUÂNTICO- Uma visão revolucionária da natureza humana E da consciência, baseada na nova física -Parte 3


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Pampsiquismo — pleno e limitado

A maior parte das pessoas provavelmente tem pouca dificuldade em aceitar a possibilidade de que todos os membros do reino animal possuem uma vida consciente em algum grau. Alguns de nós talvez precisem ser convencidos de que os caramujos possuem um “ponto de vista” ou de que as minhocas tenham livre-arbítrio, mas não está completamente fora de nossa capacidade imaginar que outras criaturas talvez partilhem conosco algumas das propriedades que normalmente associamos à percepção consciente. Algumas pessoas, ao menos, estão familiarizadas com a idéia — se não plenamente convencidas — de que outros seres vivos, como as plantas, também podem ser dotados de algum tipo de propriedade sensitiva rudimentar. Mas, se formos mais além, até chegar a uma posição pampsíquica, sugerindo que mesmo os objetos inanimados como pedras ou pedaços de pau (para não falar de elétrons) devem ser incluídos no conjunto de seres conscientes da natureza, estaremos indo muito além do alcance da intuição da maior parte das pessoas — ao menos daquelas influenciadas pela atmosfera intelectual dos últimos trezentos anos. Poucos dentre os que estão vivos hoje têm algum sentimento de semelhança com a terra sobre a qual caminham ou a poeira que inalam.E, no entanto, nossa intuição moderna sobre tais coisas está em dissonância com muitas plataformas de nossa história cultural pré-cartesiana e pré-newtoniana.

Tem-se alguma espécie de pampsiquismo organizado desde os tempos pré-socráticos. O Uno de Parmênides ou o Fluxo Divino de Heráclito fazem supor que todas as coisas, conscientes e materiais, derivam fundamentalmente de uma fonte comum. “Deus é o dia e a noite, o verão e o inverno, a guerra e a paz, a saciedade e a fome; mas assume várias formas, assim como o fogo quando é misturado com espécies leva um nome segundo o sabor de cada uma delas (…) O homem não sabe o quanto aquilo que sofre variação está harmonizado com ele.” Antes disso ainda, os espíritos da natureza dos animistas povoaram as árvores, montanhas e nuvens de chuvas da Grécia Antiga, da mesma forma que em muitas outras sociedades primitivas. A metáfora da Grande Corrente do Ser,10 que retratou tudo como pertencente a uma única corrente unificada e completa estendendo-se do homem às menores partículas da matéria inanimada, originada em Timeu de Platão, influenciou a visão de mundo da gente de toda a Idade Média e da Renascença. Apenas nesta era moderna é que perdemos grandemente o contato com esse antigo paradigma. Mas, apesar disso, ou mais provavelmente como reação defensiva à tendência materialista e mecanicista de nossa cultura recente, algum tipo de pampsiquismo promoveu uma tradição moderna subcultural própria. Para muitos, a motivação foi básicamente espiritual ou religiosa. Conforme está expresso na Encyclopedia of Philosophy, muitos acreditaram que “somente aceitando o pampsiquismo é que o homem moderno (que acha impossível crer nas afirmações da religião tradicional) poderá escapar às angustiantes implicações do materialismo”.

Elevando a matéria ao nível da consciência, ou ao menos enxergando algumas propriedades conscientes incipientes em toda a matéria, muitos filósofos e psicólogos modernos (Spinoza, Leibnitz, William James, Teilhard de Chardin, Whitehead etc.) entraram em contato com uma realidade subjacente não de todo alheia à sua própria experiência. “Se somos pampsíquicos”, escreveu o filósofo alemão Hermann Lotze, no século 18, “não mais contemplamos ‘uma parte do cosmo como mero instrumento cego e sem vida do cosmo usado para os fins de outra parte’, mas, ao contrário, encontramos ‘sob a superfície serena da matéria, por trás das repetições rígidas e regulares de seu funcionamento (…) o calor de uma atividade mental oculta’.” O contemporâneo de Lotze, G. T. Fechner, via a própria Terra como uma criatura viva, “um todo unitário em forma e substância, em propósito e efeito (…) e auto-suficiente em sua individualidade” — uma idéia popularizada em nossa época pelo entusiasmo nutrido pela hipótese Gaia de J. E. Love-lock. Muitos dos modernos pampsiquistas aceitavam a doutrina em sua forma mais plena, acreditando que cada montanha, árvore, flor e partícula de poeira realmente possui uma vida interior psicológica, mas este não é o tipo de pensamento pampsiquista que nos diz respeito aqui. Antes, devemos nos preocupar em ver o que a física moderna poderá lançar sobre a natureza da consciência, a fim de compreendermos o que há no relacionamento entre matéria e consciência, no nível quântico que agora faz com que alguns físicos quânticos, e mais um punhado de filósofos baseados no trabalho daqueles, sejam considerados integrantes da tradição pampsiquista.

Necessáriamente é uma forma muito mais limitada e cautelosa de pampsiquismo, já que nada na física moderna sugere que as montanhas têm alma ou que as partículas de poeira possuem uma vida interior. A lógica empregada no pampsiquismo limitado tem início no fato óbvio de que há somente um tipo básico de matéria. Segue-se daí que todas as coisas — animadas e inanimadas — são feitas da mesma coisa, e que parte desta matéria tem indubitável capacidade para a vida consciente e que, ao menos no nível quântico, há um diálogo criativo entre matéria e consciência de tal forma que a mente consciente do observador de fato influencia o desenvolvimento material daquilo que observa. Como disse o filósofo Thomas Nagel:” Cada um de nós é composto de matéria; esta tem uma história predominantemente inanimada até chegar aos códigos genéticos de nossos pais. Provávelmente já foi parte do Sol, mas a matéria vinda de uma outra galáxia faria o mesmo efeito (…) Qualquer coisa, se suficientemente decomposta e rearranjada, poderia ser incorporada a um organismo vivo. Não é preciso nenhum componente além da matéria.”

Além disso, a matéria inanimada da qual nós, seres conscientes, somos feitos está sempre mudando — no caso dos seres humanos ela muda totalmente a cada sete anos. Nenhum átomo sequer dos que agora contribuem para o feitio de meu ser físico era parte de mim sete anos atrás. Nossos corpos vivos estão em constante e dinâmico interrelacionamento com outros corpos e com o mundo inanimado à nossa volta. Então, como podem os mesmíssimos átomos ser parte de uma estrutura consciente num dado momento de sua história e parte de um objeto inanimado em outro? Em que momentos eles, ou a estrutura da qual fazem parte, adquirem consciência? Em seu trabalho sobre o pampsiquismo, Nagel chega relutantemente à conclusão de que: “…a menos que estejamos prontos a aceitar  que o surgimento das propriedades mentais em sistemas complexos não tem nenhuma explicação causal, devemos aceitar a corrente epistemológica da emergência mental como uma razão para acreditar que os componentes têm propriedades que desconhecemos e que necessáriamente devem obter esses resultados.” Ou seja, devemos aceitar que, se a consciência não for algo que simplesmente aparece, emerge e se acrescenta sem causa aparente, então ela deve estar ali presente sob alguma forma desde o início, como uma propriedade básica dos componentes de toda a matéria.

Como diz Karl Popper, “a matéria morta parece ter mais potencialidades que meramente produzir matéria morta”. Mas, quando Nagel sugere que algum aspecto da mente ou consciência possa estar associado a toda matéria, está se referindo ao que ele denominou “propriedades protomentais”, uma espécie de aspecto mental elementar da realidade que só se torna própriamente consciente quando adequadamente combinado a um sistema complexo. Ele argumenta que tanto essas propriedades protomentais como a matéria elementar com a qual estão associadas talvez derivem de uma fonte comum, de um nível mais fundamental da realidade, que tem em si mesmo um potencial duplo de se tornar tanto mental como material. “Tal redutibilidade a uma base comum teria a vantagem de explicar como poderia existir conexão causai recíproca entre fenômenos físicos e mentais.” A descrição que Nagel faz de uma realidade mais fundamental que é a fonte comum de ambos, aspecto mental e material do mundo, é certamente compatível com o que se conhece da realidade quântica e da dualidade onda—partícula, e também partilhada por alguns importantes físicos quânticos. David Bohm, por exemplo, formado por sua longa carreira dentro da física e influenciado pelo pensamento pampsiquista de Spinoza e Whitehead, acredita que:” O mental e o material são dois lados de um mesmo processo global que, como a forma e o conteúdo, estão separados apenas no pensamento e não na realidade. Há uma energia que é a base de toda realidade. Nunca há divisão real entre os lados mental e material em nenhum estágio do processo global.”Para Bohm, como para Whitehead e Teilhard de Chardin, que vieram antes dele, essa visão da realidade como processo o leva a considerar a presença de propriedades protoconscientes (o protomental de Nagel) ao nível da física das partículas. Vimos nos posts anteriores que, de alguma forma desconhecida, um elétron ou fóton (ou qualquer outra partícula elementar) parecem “saber” sobre as mudanças em seu ambiente, aparentemente reagindo de acordo com elas. Isso é válido ao menos sob condições experimentais, sendo um dos dividendos mais misteriosos do problema da observação. No famoso experimento das duas aberturas utilizado para ilustrar a dualidade onda—partícula, os fótons comportam-se de forma muito diferente se antes da detecção lhes for oferecida a oportunidade de passar por uma abertura ou por duas. Se apenas uma abertura estiver livre, eles se comportam como partículas, atingindo a superfície detectora como uma corrente de disparos a bala. Se há duas aberturas, eles se comportam como ondas e criam um típico padrão de interferência na outra extremidade .

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Eles parecem “saber” que aspecto de sua natureza dupla é exigido pela experiência e comportam-se de acordo com isso. Na experiência de escolha retardada com fótons feita por Wheeler, e discutida no capítulo anterior, esse “conhecimento” do ambiente experimental é verdadeiramente fantástico. Ali, o fóton tem as duas aberturas livres o tempo todo, só que mais adiante ele encontra a opção de um detector de partícula e uma tela de interferência, um dos quais foi colocado em seu caminho após ele já ter passado por uma ou duas aberturas. Mesmo nesse estágio tardio ele parece “saber” o que o espera e parece escolher quase radiativamente tanto seu trajeto como, portanto, sua natureza. Só depois de atingir um ou outro obstáculo é que podemos saber se ele passou por uma ou por duas aberturas. Bohm usa uma bela e evocativa analogia para ilustrar essas propriedades aparentemente “sábias” das partículas subatômicas. Ele compara o movimento dos elétrons no laboratório ao de bailarinos obedecendo a uma partitura musical. A partitura seria um “banco de informações comum a todos e que orienta cada um dos dançarinos à medida que executam seus passos…”

No entanto, devemos ser cautelosos. Dizer que uma visão pampsiquista limitada seja compatível com a física quântica não é afirmar que aquela é necessária a esta. Não há nada na teoria quântica desenvolvida até agora que tenha qualquer coisa a dizer sobre as origens da consciência na realidade quântica, nem sobre a existência possível de propriedades protoconscientes associadas às partículas subatômicas elementares. Mesmo a dança dos elétrons de Bohm é, no estágio atual, apenas uma metáfora envolvente. Tais possibilidades são sugeridas pelo comportamento misterioso dos fótons e dos elétrons no laboratório e pela natureza participativa do relacionamento observador—observado; porém a teoria quântica em si deve ainda abordá-los — e na verdade ela não tem como fazê-lo enquanto não alcançarmos uma melhor compreensão da natureza da consciência em si. Por fim, qualquer discussão realmente produtiva sobre as possíveis propriedades conscientes das partículas elementares ou mesmo do relacionamento de matéria e consciência entre si pede um casamento da física com a psicologia, que só pode se realizar mediante um bom modelo de como a consciência realmente funciona — um modelo da física da consciência. Tal modelo poderá, então, ser utilizado para explorar a questão de se a consciência que conhecemos e reconhecemos como tal em nós mesmos e em outros animais é uma propriedade emergente de sistemas complexos de vida ou se os sistemas complexos de vida simplesmente têm a capacidade de organizar de forma lógica as propriedades protoconscientes da matéria mais elementar.

Consciência e Cérebro: Dois Modelos Clássicos

Embora, sob muitos aspectos, a consciência seja a coisa mais conhecida e acessível que cada um de nós possui, ela continua como um dos fenômenos menos compreendidos deste mundo. Toda vez que dizemos “eu” ou “nós”, temos como suposição tácita que existe um “eu” ou “nós” consciente que está ali falando e pensando. Contudo, no mesmo momento em que tentamos focalizar este ser pensante, agarrá-lo de alguma forma tangível — como pegamos num dedo ou numa orelha — ele parece desaparecer diante de nossos “olhos”. Sabemos bastante sobre como os dedos pegam uma coisa e como os ouvidos ouvem, mas sobre a origem e a natureza daquela pessoa consciente que dá origem ao pegar, ou interpreta o que se ouviu, não temos virtualmente nenhum fato físico. Não existe nenhuma anatomia ou fisiologia da consciência, muito menos uma física. Há aqueles (os dualistas),  que argumentam que jamais poderá haver nenhuma compreensão física do ser ou da mente. Eles alegam que a mente e o corpo são coisas bem distintas e que a mente é necessáriamente incorpórea — um “algo” etéreo que simplesmente nos vem de algum lugar lá fora e reside temporariamente dentro ou junto do “invólucro” do corpo. Mas há outros, em geral de tendências mais científicas, que estão convencidos de que a mente, ou consciência — como tudo o mais —, deve ter alguma explicação física. Sua fonte deve estar localizada em algum lugar do corpo, embora o local exato onde se pensa que ela esteja tenha variado consideravelmente ao longo do tempo, dando origem a todos os tipos de modelo.

O antigo filósofo grego Epicurus acreditava que havia “átomos de alma” espalhados pelo corpo, responsáveis tanto pela consciência como pela vitalidade em geral, embora muitos gregos antigos pensassem que o coração ou o peito fossem a fonte dessas coisas. Outros fizeram suposições de que a consciência brotasse do funcionamento do fígado ou residisse no sangue. Segundo os filósofos hindus, ela está concentrada nos chakras, localizados ao longo da espinha dorsal — daí nossa suposta habilidade de dominá-los através da meditação ioga. E, nos tempos mais modernos, Descartes propôs que o ponto de encontro entre corpo e alma fosse a misteriosa glândula pineal localizada no centro do cérebro. Hoje a maioria dos que procuram uma sede física para a consciência presume que sua fonte deve estar na capacidade funcional do cérebro em si. Danos provocados em outros órgãos do corpo podem ocasionar todo tipo de distúrbios, mas um violento golpe na cabeça quase sempre provoca perda da consciência, exatamente como as drogas que agem sobre o cérebro e comprovadamente alteram vários padrões de consciência. Presume-se, portanto, que existe um vínculo necessário entre os estados físicos do cérebro e a consciência ou os estados mentais, embora a natureza exata desta ligação ainda seja um dos grandes mistérios tanto da ciência como da filosofia.

HARDWARE X SOFTWARE

Nos últimos anos, a maneira escolhida para tratar desse enigma tem sido o “funcionalismo” e a tendência a comparar o cérebro com um computador, sugerindo que a mente, ou consciência, pode ser igualada aos processos que acontecem dentro do computador. Somos aquilo que podemos fazer, e o que podemos fazer é definido pelo plano detalhado de nosso circuito. O modelo do computador ainda domina a maior parte das pesquisas sobre o cérebro, que por sua vez tingem com suas cores toda forma de nos percebermos. Muitas vezes falamos em ter de “alimentar o sistema” ou estarmos com os “fusíveis queimados”, estarmos “ligados” ou “desligados” e “programados para o sucesso ou para o fracasso”. Dizemos que nosso cérebro é o hardware e nossa mente o software. Toda a biologia moderna agora opera segundo “programas comportamentais” onde antes havia um senso de propósito, ou ao menos de direção. Pensamos em nós mesmos como a “máquina mental”. O cérebro é certamente o órgão controlador central do sistema nervoso e, como tal, suas funções físicas incluem comunicação, coordenação, computação, aprendizado e memória, todas elas funções que nossos melhores computadores também possuem em algum grau. Nesse nível, as analogias entre o funcionamento cerebral e o do computador são irresistíveis. Existe indubitável semelhança entre o modo como são organizados os complexos ajuntamentos de neurônios do cérebro e o serpentear de fios que compõe o circuito elétrico de um computador, especialmente agora com a invenção dos computadores com processamento paralelo. Assim como as “células nervosas” de um computador, os 10 bilhões ou 100 bilhões de neurônios do cérebro são também um tipo de fiação elétrica com várias mensagens passando para dentro e para fora do cérebro através de impulsos eletromagnéticos que viajam pelas ligações entre os neurônios, as sinapses. O cérebro está sempre literalmente fervilhando com milhões de acontecimentos neurais altamente carregados, dentre os quais, sem dúvida, uma grande parte é responsável por nossas impressionantes habilidades de processar dados e computar.

Mas será que isso é o que entendemos por consciência? Será a computação — com toda sua diversidade e complexidade — tudo o que a mente verdadeiramente tem? Se assim for, ficamos tentados a imaginar por que os computadores não possuem mente. Sem dúvida, eles sabem fazer coisas muito sofisticadas. Conseguem analisar material genético, operar matemática complexa, ou jogar xadrez num nível razoável, embora vagarosamente. Mas até agora ninguém afirmaria que um sistema de computação eletrônico de qualquer tipo imaginável seja sequer remotamente consciente. Simplesmente não conseguimos sentir que eles são conscientes. Faltam-lhes espontaneidade e criatividade, falta-lhes imaginação, eles não riem de piadas, não desfrutam de música e não sentem dor nem fazem nenhuma das outras coisas desse tipo que normalmente associamos com a vida consciente da mente humana. Como colocou um filósofo de Oxford: “Simplesmente não saberíamos interpretar a sugestão de que um IBM 100 esteja bravo ou deprimido ou passando por uma crise de adolescência”. Talvez seja possível conceber que inventemos programas sofisticados que darão aos computadores a aparência de tal comportamento consciente — como no caso um tanto fantasmagórico de Eliza ou Doctor, o programa concebido para estimular entrevistas psiquiátricas; Mas, como alertou o autor do Eliza, há mundos de diferença entre técnica ou simulação programadas e uma verdadeira espontaneidade e empatia. Pensar de outro modo seria uma forma de insanidade, embora muito freqüentemente em nossa cultura mecanizada a insanidade passe por normalidade. Se aceitarmos a equivalência entre o ser e o fazer dos funcionalistas não há modo claro de argumentar que algo que se comporta conscientemente não seja consciente. Toda nossa forma de ver a consciência vem sendo tão tolhida pelo modelo mecânico que lhe foi imposto que perdemos de vista os fatos que ligam o desenvolvimento cerebral à consciência e ficamos cegos às características verdadeiras de nossa percepção consciente. Tornamo-nos insensíveis a nossa própria experiência e, no processo, a distorcemos. O perigo é o de que, se continuarmos a nos ver como máquinas, talvez nos tornemos máquinas — isto é, talvez venhamos a reduzir toda a riqueza de nossa vida consciente ao espectro muito mais estreito dos pensamentos e comportamentos que podem ser transpostos para programas. Este é um perigo que outros reconheceram e sobre o qual escreveram, mas se quisermos vencê-lo devemos encontrar uma forma radicalmente diferente de pensar sobre a ligação mente-cérebro, e através disso uma forma mais humana de nos percebermos.

No fim, isso só pode ser feito através de uma melhor compreensão de ambos: da fisiologia do cérebro e do fundamento físico da consciência. De fato, o cérebro humano é uma complexa matriz de sistemas sobrepostos e interligados, correspondentes às várias etapas da evolução, e o ser que dele brota é parecido com uma cidade construída ao longo das eras. Sua arqueologia inclui uma camada pré-histórica, uma camada medieval, uma camada renascentista ou elizabetana, uma camada vitoriana e alguns prédios modernos. Ela certamente não é apenas uma “cidade nova” ou uma “cidade de fronteira” construída toda de uma vez em vinte anos, como sugere o modelo do computador. Cada um de nós traz em seu próprio sistema nervoso toda a história da vida biológica no planeta, ou ao menos aquela pertencente ao reino animal. Na camada pré-histórica encontramos os animais unicelulares como ameba ou paramécio, que não possuem sistema nervoso. Toda sua coordenação sensorial e reflexos motores se dão numa única célula. Nossas células do sangue, os glóbulos brancos, ao recolher o lixo e consumir as bactérias, comportam-se no sangue de uma forma muito parecida com as amebas nos lagos. Animais pluricelulares simples, como a água-viva, não possuem sistema nervoso central, mas têm uma rede de fibras nervosas que permite a comunicação entre células para possibilitar ao animal reagir de forma coordenada. Em nosso corpo, as células nervosas do intestino formam uma rede que coordena o peristaltismo, as contrações musculares que empurram a comida. Com o passar do tempo, acrescenta-se camada sobre camada nessa “cidade” em evolução. A partir dos insetos, começa-se a encontrar uma ou mais massas de tecido nervoso que se encarregam de uma computação mais extensiva, e estas massas organizam-se cada vez mais próximas da extremidade da cabeça. Nosso reflexo de contração, que nos faz levar a mão para longe de uma panela quente, envolve apenas o cordão espinhal e assemelha-se, tanto anatomicamente quanto no comportamento, ao encontrado nas minhocas. Com o advento dos mamíferos, desenvolve-se um telencéfalo — primeiro o telencéfalo primitivo dos mamíferos inferiores governado basicamente por instintos e emoção, e depois os hemisférios cerebrais com toda sua sofisticada capacidade de computação, aquelas “células cinzentas” que a maioria de nós identifica com a mente humana. No entanto, o estado de embriaguez, o uso de drogas como barbitúricos e outros tranqüilizantes ou mesmo uma lesão do telencéfalo superior resultam numa regressão a tipos de comportamento mais primitivos, mais espontâneos, menos calculistas, como os observados nos mamíferos inferiores. Quase a totalidade da psiquiatria humana, o lado verdadeiramente médico do tratamento dos problemas que afetam a consciência, preocupa-se em regular o hipotálamo e o telencéfalo primitivo. Assim, apesar da crescente centralização e complexidade que aparecem à medida que o sistema nervoso evolui, as redes nervosas mais primitivas perduram, tanto no interior do cérebro em expansão como em todo o corpo. As fases mais recentes de nossa evolução suplantaram as fases anteriores, mas não as substituíram completamente. As experiências da ameba e da água-viva, da minhoca e da formiga estão todas plantadas em nossos tecidos nervosos, e como cada uma dessas criaturas partilhamos a capacidade de ser consciente.

CONEXÕES E PERCEPÇÕES

Conforme observou Whitehead, “a mente humana é consciente de sua herança corporal”. Portanto, o que quer que seja a consciência, não poderá ser idêntica às funções cerebrais superiores possibilitadas pelas conexões nervosas no córtex cerebral. Evidentemente a forma que a nossa consciência assume, o conteúdo de nossas percepções e pensamentos são influenciados por essas conexões, mas a capacidade de ser consciente em si, a consciência não estruturada, crua, deve ser mais elementar. Alguns animais, embora conscientes, não têm córtex,’outros somente um córtex muito primitivo. Alguns humanos que tiveram grandes regiões de seu córtex cerebral danificadas ou removidas cirúrgicamente podem apresentar perda de uma capacidade específica, como a fala, a visão ou o movimento, mas permanecem conscientes, da mesma forma como bebês recém-nascidos também são conscientes. A consciência em si, que inclui a capacidade geral de percepção e atividade propositada, deve surgir de algum mecanismo físico muito mais primitivo que o cérebro humano desenvolvido, de um mecanismo acessível a uma reles ameba. Assim, compreender de que forma isso pode acontecer — encontrar uma base para a consciência que explique a consciência de todas as criaturas vivas (e possivelmente das não vivas) — é de fundamental importância para a compreensão tanto do lugar quanto da razão de ser de uma consciência humana no esquema geral das coisas. Essas são as considerações com as quais, de um ponto de vista geral, se argumenta contra o modelo de cérebro calcado no computador, mas há também argumentos fenomenológicos. Se examinarmos atentamente certas características básicas da consciência — ao menos na forma em que são experimentadas pelos seres humanos — fica evidente que uma capacidade com essas características não poderia, em princípio, advir de tal modelo.

Todos os modelos calcados no computador partilham de uma suposição subjacente de que o cérebro em si funciona segundo as mesmas leis e princípios de uma vasta máquina de computação — isto é, que suas diferentes partes (seus neurônios) cooperam de modo ordenado, mecânico, obedecendo a todas as leis determinadas da física clássica. Num modelo assim, um estado cerebral deriva necessariamente do outro. Temos somente um grupo de neurônios estáticos e previsíveis “olhando para” outros grupos e reagindo a eles, sem nenhum lugar no cérebro onde todos esses grupos separados se integram. Não há um “comitê central” de neurônios que supervisiona o processo como um todo, dando unidade ao funcionamento cerebral e permitindo-lhe fazer escolhas livres e espontâneas. Onde está então, em meio aos trilhões de conexões nervosas e eventos deterministas, a pessoa que experimentamos como sendo nós mesmos? O que explica o “eu” que experimenta fome, que decide comer uma maçã e sente prazer após fazê-lo? Como é que chegamos a ter “a experiência” de comer uma maçã em vez de umas tantas impressões desconexas produzidas por um milhão de impulsos sensoriais distintos?

O MAPA DE CARACTERÍSTICAS DISTINTAS

O problema foi ilustrado por um trabalho recente sobre a visão humana. Quando vemos uma maçã, sabemos imediatamente que é uma maçã, um pequeno objeto vermelho, redondo, em pé dentro de uma fruteira a um metro de distância, sobre a mesa. Há outras associações ligadas à maçã em nossa percepção consciente total: que ela irá satisfazer nossa fome, que ela faz bem à saúde, que a decisão de Eva quando comeu a maçã foi a desgraça da humanidade etc. Mas essas associações não fazem parte da percepção visual, que consiste em informações sobre o tamanho, forma, orientação, cor e localização da maçã — cada uma das quais é anotada separadamente pelo cérebro. O cérebro não vê “uma maçã”, mas antes o vermelho, o redondo, o pequeno etc. A informação sobre cada uma das características está arquivada num lugar diferente, dentro de um “mapa de características distintas” e depois subseqüentemente num “plano geral de localização” . Uma vez composto o plano geral, a atenção focalizada assume o comando, olha para o plano geral e vê a maçã. A atenção faz uso desse plano geral selecionando simultaneamente, através de ligações com os diversos mapas de características, todas as características normalmente presentes numa determinada localidade . A informação integrada sobre as propriedades e relações estruturais em cada arquivo de objeto é comparada com descrições armazenadas numa “rede de reconhecimento”. A rede especifica os atributos decisivos de gatos, árvores, ovos mexidos, nossa avó e todos os demais objetos de percepção conhecidos.

A ATENÇÃO FOCALIZADA

Mas o que é esta atenção focalizada que promove a integração da informação vinda do plano geral da percepção? A unidade de nossa experiência consciente, o fio de atenção focalizada que reúne toda a miríade de impressões sensoriais, é um dado subjacente a todos os outros aspectos dessa experiência. Como as notas de uma melodia ou as várias características da maçã ou cenas visuais mais amplas, os conteúdos de nossa consciência se mantêm coesos. Eles formam um todo, um “quadro”. Cada parte desse todo deriva dele o seu significado e reflete em seu próprio ser tanto o todo como suas outras partes constitutivas. O fá sustenido que eu ouço é um “fá sustenido do Adágio de Mozart”, não está isolado em minha percepção. O arbusto que vejo da janela do meu escritório, suas folhas se agitam no horizonte,todas essas coisas estão presentes em mim ao mesmo tempo quando olho pela janela. Elas são, em sua inteireza, “minha visão da janela”. Sem esta inteireza, essa unidade, não poderia existir nenhuma experiência tal como a conhecemos, nada de maçãs, jardins, nenhum sentido do ser (identidade pessoal ou subjetividade) e, portanto, nenhuma vontade pessoal ou decisão (intenção) propositada — tudo isso são características conhecidas de nossa vida mental. A unidade é a característica mais essencial da consciência, tão básica ao que quer que chamemos consciência que a maioria de nós nem sequer se dá conta de que existe. E, no entanto, é procurando conhecer essa unidade que nos damos conta de quão profundamente misteriosa é a consciência e por que sua física nos vem confundindo até hoje. Não há unidade comparável a ela em nenhum sistema descrito pela física que conhecemos do cotidiano. Todo o corpus da física clássica e a tecnologia nela baseada (incluindo-se a dos computadores) dizem respeito apenas à separação entre as coisas, às partes que compõem as coisas e à maneira como elas se influenciam umas às outras dentro de sua separação, assim como os neurônios do cérebro agem uns sobre os outros através das sinapses.

Ainda que não houvesse outros bons motivos para rejeitar o modelo do computador para o cérebro, o argumento relacionado com a unidade da consciência por si já condenaria esse modelo. Como disse Descartes, quando se viu às voltas com o problema de como explicar a consciência em termos físicos, “há uma grande diferença entre a mente e o corpo, na medida em que o corpo é por sua própria natureza sempre divisível, enquanto a mente é totalmente indivisível”. Essa divisão aparentemente irreconhecível foi um dos argumentos que levou Descartes a seu dualismo.Filósofos mais modernos, embora ainda esperançosos de encontrar alguma maneira para explicar a consciência em termos físicos, chegaram à mesma conclusão quanto a todos os modelos físicos clássicos, até mesmo o calcado no computador.8 E, se a física do computador em princípio não consegue dar-nos uma física da consciência, não pode ser um modelo totalmente correto para demonstrar como o cérebro funciona e tampouco é, conseqüentemente, um reflexo muito acurado de nós mesmos e de como funcionamos como seres humanos. No lugar do modelo do computador, algumas pessoas, motivadas pelas deficiências desse exemplo, e divergindo de quase tudo o que sugere sobre a consciência e o ser, propuseram um tipo de modelo bem diferente para refletirmos sobre a consciência e o cérebro, um modelo que pretende partir do tema da unidade e explicá- la em termos físicos. É o modelo holográfico, ou o “paradigma holográfico”, como é por vezes grandiloqüentemente descrito. E è este novo conceito que veremos a seguir, no próximo post da série.

CONTINUA….

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A consciência não está no cérebro

CENTER FOR CONSCIOUSNESS STUDIES 

SCIENCE OF CONSCIOUSNESS

SCIENTIFIC AMERICAN-ARTICLESVEJA-EXCLUSIVO-CÉREBRO X MENTEMENTE CÉREBRO-UMA ANÁLISE CRÍTICA

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CONCLUSÃO E NOTA DO BLOG

Numa psicologia quântica, não há pessoas isoladas. Existem indivíduos, que possuem identidade, significado , propósito, mas, como as partículas, cada um é uma breve manifestação de uma particularidade(Consciência). Essa particularidade está em correlação não-local com todas as outras particularidades e, em certo grau, entrelaçada a elas. Tudo o que cada um de nós faz afeta todos os demais, direta e físicamente. Sou guardiã de meu irmão porque meu irmão é parte de mim, assim como minha mão é parte de meu corpo. Se machuco minha mão, meu corpo inteiro sente a dor. Ao ferir minha consciência — ocupando-a com pensamentos maliciosos, egoístas ou maldosos — estou ferindo todo o “campo” não-localmente conectado da consciência. Cada um de nós, em virtude de nosso relacionamento integral com os outros, com a natureza e com o mundo dos valores, tem a capacidade de melhorar ou piorar o Todo. Portanto, cada um de nós carrega como resultado de nossa natureza quântica uma tremenda responsabilidade moral. Eu sou responsável pelo mundo porque, nas palavras de Krishnamurti, “eu sou o mundo”. Ou, na expressão de Jung: “Se as coisas vão mal no mundo, isso é porque algo vai mal com o indivíduo, porque algo vai mal comigo”. Portanto, se sou uma pessoa sensata, vou me endireitar primeiro. Apenas responsabilidade dá significado e valor a nossa existência. Mas em que medida podemos fazer face a ela? Se uma psicologia do compromisso e da responsabilidade quiser ter algum valor em si mesma, deverá levantar a questão da liberdade humana, a questão do grau em que qualquer um de nós é livre para se comprometer como quiser ou assumir a responsabilidade que é nossa por natureza. Portanto, uma psicologia quântica deve adotar alguma posição quanto à realidade e eficácia da escolha. 

EQUIPE DA LUZ É INVENCÍVEL

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Bibliografia para consulta

 O Universo Elegante
Brian Greene
 Em Busca da Unificação
Charles W. Misner, Kip S. Thorne and John Archibald Wheeler
O Tecido do Cosmos  , The Hidden Reality .
 Brian Greene
Muito além da velocidade da luz
 Marc Seifer PhD
 Física Quântica-Eisberg-Resnick

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Nós agradecemos a compreensão de voces.

3 comentários em “O SER QUÂNTICO- Uma visão revolucionária da natureza humana E da consciência, baseada na nova física -Parte 3

  1. Pingback: O Ser Quântico – Uma visão revolucionária da natureza humana E da consciência, baseada na nova física – 3ª Parte – 03.02.2016 | Senhora de Sírius

  2. Prezados, gostaria de expressar a minha gratidão e admiração pela qualidade das postagens. Como professora de yoga, ensino também os Yoga Sutras de Patanjali, e o material que me chega através do seu blog é rico e ilustrativo. Tenho utilizado referências nas aulas.
    Sou também tradutora,e vejo que o trabalho realizado é imenso.
    Saudações, Lucia Ehlers

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    • Olá Lúcia

      Obrigado pelo comentário,pelas gentis palavras e pela presença.Seja bem vinda.

      Nós da Equipe da Luz ficamos muito felizes por saber que estamos podendo cumprir o que nos propusemos desde o início;levar informação/conhecimento fidedignos,auxiliando as pessoas neste evento da Transição Planetária.Todos podemos contribuir com alguma coisa que sabemos ou que já aprendemos, como voce faz com suas habilidades.Agradecemos as suas considerações sobre o nosso blog e fique á vontade para expressar-se e utilizar as postagens para seus ensinamentos.Continue conosco.

      Muitas vibrações positivas da Equipe da Luz é Ìnvencível

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